Cresce exportação de manufaturados do Brasil aos EUA

A exportação brasileira começa a refletir os sinais do crescimento americano e as vantagens de um real mais desvalorizado frente ao dólar. O embarque de manufaturados brasileiros para os Estados Unidos cresceu 5,64% de janeiro a abril deste ano contra iguais meses de 2014, um desempenho que chama a atenção levando em conta que a exportação total de manufaturados do Brasil caiu 11,3% no mesmo período.

Os manufaturados vendidos aos EUA tiveram evolução mais positiva que os embarques brasileiros totais para os americanos, que recuaram 5,69%, influenciados pela queda de 41,4% na exportação de petróleo, sempre no primeiro quadrimestre de 2015 contra iguais meses de 2014. O desempenho permitiu aos manufaturados avançar de 50,6% para 56,5% dentro da exportação total brasileira aos americanos. Os dados são do ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic).

A desvalorização do real fez os Estados Unidos ressurgirem entre os destinos de exportação da indústria de bens de capital Metalplan, conta o diretor da empresa, Edgard Dutra. O país já foi o mais importante mercado externo para a empresa, mas perdeu espaço em 2006 e os últimos embarques aconteceram em 2008, próximo ao período em que os argentinos começaram a ganhar importância. A venda aos americanos foi retomada apenas no ano passado, por conta do câmbio mais favorável, com encomendas pequenas. Para este ano a expectativa da empresa é negociar contratos maiores para fornecimento de compressores e secadores que atendem a vários setores industriais.

Dutra pondera, porém, que, apesar de o câmbio ter possibilitado a retomada de negociações, há ainda uma competição acirrada com fornecedores asiáticos, principalmente da China.

Entre os manufaturados com exportações em alta para os Estados Unidos, segundo dados do Mdic, estão materiais para construção e autopeças, que estão bem relacionados à recuperação da economia americana, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ligados ao setor de construção, cresceram, por exemplo, os embarques de niveladores, com alta de 41,9%, de portas, caixilhos e soleiras de madeira, com avanço de 14% e de ladrilhos vidrados e esmaltados, em 38,4%. No segmento de autopeças, cresceram blocos de cilindros para motores a diesel (21,1%) e virabrequins (32,7%). Peças de aeronaves, como partes de turborreatores, também ajudaram, com alta de 35,4%.

Castro chama a atenção para itens como móveis de madeira para quartos de dormir e lápis, com avanços de 36,5% e de 39,6%, respectivamente. “Esse tipo de produto é o que mais rapidamente se beneficia da melhora do câmbio para o exportador. Porque são produtos de ciclo curto, nos quais a variação cambial favorável é incorporada de forma mais acelerada aos preços.” O lápis, pondera ele, significa pouco dentro do valor total exportado. “Mas a recuperação de embarques acontece aos poucos e esse tipo de produto mostra melhora na competitividade, dada pelo câmbio.” A exportação de lápis aos americanos somou US$ 16,15 milhões no acumulado até abril.

Para o executivo da AEB, esses resultados nos primeiros meses do ano devem ser somente o início. Uma recuperação de exportação de manufaturados aos Estados Unidos deve ficar mais clara a partir de junho e durante o segundo semestre, embora a expectativa é de que o aumento dos embarques seja gradativo, sem explosões.

Silvio Campos Neto, economista da Tendências, diz que a evolução da venda de manufaturados mostra que o câmbio é componente importante, principalmente no comércio com os Estados Unidos, já que a desvalorização do real frente ao dólar tem sido maior do que em relação a outras moedas, como o euro ou o peso de diversos países da América Latina.

Além de câmbio, o quadro da economia americana contribui favoravelmente. “Apesar de um PIB americano não tão animador no primeiro trimestre, com estagnação na comparação com o trimestre anterior, há um alta de 3% contra o mesmo período de 2014.” A estimativa da Tendências para 2015 é de crescimento do PIB americano de 2,9%.

No ano passado os EUA se tornaram o principal destino de manufaturados, ultrapassando a Argentina, que estava no topo do ranking desde 2008. A expectativa é de que a liderança americana se mantenha e a diferença se alargue em relação aos argentinos. “Não é possível dizer o quanto a exportação brasileira de manufaturados vai crescer, mas a perspectiva é de que haja uma recuperação moderada até o fim do ano.”

Lia Valls, professora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), diz que ainda é cedo para dizer que haverá recuperação das exportações aos americanos. Ela avalia, porém, que há segmentos capazes de aproveitar o câmbio mais favorável de forma mais rápida. “Os embarques dos setores de autopeças podem estar ligadas ao comércio das multinacionais, porque a produção da unidade brasileira ficou mais competitiva”, exemplifica. “De qualquer forma os dados mostram que as empresas estão olhando para os Estados Unidos num momento em que o mercado interno está fraco e se desacelera a demanda de tradicionais compradores, como a Argentina.”

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